Lembro-me daquela Novembro pouco chuvoso.
Instalava-se as primeiras penumbras de um terça feira fria quando entrei pela casa.
Eras uma daquelas raras alturas em que havia lá alguém. Em que de facto era uma casa. Estavam todos lá.
E ao rustilhar das chaves na fechadura, veio toda a vivacidade que me lembrava de haver ali. As músicas de natal precoces, o cheiro de um assado por assar no forno, um monologo entediante da irmã estudiosa e os telefonemas acutilantes de um pai em missão.
E na sala, a montar a árvore, estava a Mãe.
"Então, como correu a consulta?"
Parou tudo ai.
Nunca tive dificuldade em expressar-me. Sempre fui daqueles miudos que tem mais mensagens num sorriso do que em mil páginas de Saramago.
Mas ali, no meio de todo o vocábulo que me corria pela mente, não havia palavra certa.
Fui Directo. Conciso. Frio.
"Mãe, é cancro".
Parou de mexer na árvore, e voltou-se para mim.
Procurava em mim aquele sorriso irónico e jocoso que atiro irracionalmente a tudo e todos. Procurava a piada e o ar zombeteiro.
Procurava algo que eu não tinha para dar.
Caiu-lhe uma lágrima pelo canto do olho, e enquanto escorria pela face, atraia todas as que criam sair de mim.
Ainda hoje me lembro daquela tarde no Novembro pouco chuvoso. Tinha 20 anos, e não devia haver mágoas na vida. Não maiores que um exame de farmacologia, um ano barreira, ou o não falar com um velha amiga. Devia estar preocupado com brigas de namorados e cusquices de sabe-se lá quem. Mas a vida não se rege pelos devias. A vida fazia de mim o que queria.
Custaram-me tanto aquelas lágrimas que ainda hoje me custa contar a mais alguém. Porque só trago a dor aqueles me querem, e a quem eu quero o bem.
Pudesse eu voltar atrás no tempo.