
E quando partiste eu fiquei quieto, sem me mexer sequer. As ameaças pautadas do dia a dia tinham agora passado a uma realidade que eu não queria que fosse a minha. Mas era...
Fiquei no chão durante instantes e quase cai na loucura de desistir de mim mesmo e do que me é típico. Aquele lutar pelo que quero.~
Quase acreditei que eu era assim o monstro que projectam em mim...
Foi-se a força e, foste tu, foi-se tudo.
Fiquei com o nada que por pena me deixaste quando bateste com a Porta.
O sorriso, e o falso riso, escondia as noites sem dormir e os dias sem retorno. Não houve um adeus, nem um abraço. O que tinhamos partilhado até ali, mereci pelo menos um abraço, não achas? Mas nem viraste a cara. Não olhaste para mim. Era como se eu fosse transparente.
Como se as minhas lágrimas e a minha dor, fossem mais uma banalidade dramatizada, para a qual não encontravas utilidade. Era deixar um bem material que já não servia e que te arrependias de um dia ter aceitado cuidar.
E os dias passam. O Inverno tinha chegado e quando dormia, já não tinha medo do próximo dia. Mas mesmo assim doia. Doia não saber de ti. Não saber onde estavas, e se onde estavas, estavas bem.
Sabia que quando deixasse de preocupar contigo, então não podia fugir mais, era mesmo o monstro que vias em mim.
Quanto mais procurava por ti, mais me perdia durante horas sem sentido.
E naquele dia acordei bem disposto. Sentia-me bem. Revitalizado e em paz. O espelho voltava a mostrar alguém que eu amava e respeitava.
Os meus olhos menos cansados que o habitual e a vontade de sentir o sol na pele levou-me a percorrer o mundo sem compromisso. E lá fui eu...
Aquando que, entre passos mal dados por um corpo que só há pouco era meu, parei.
E quando te vi feliz, sem mim, sem mágoa, sem saudade, sem ressentimento, percebi que já não havia mais lugar para mim, que foi falso. E o que guardava era apenas memórias eternas de um faz de conta. Memórias que guardava pelos dois e que fariam parte da minha mas não da tua vida para sempre.
E era isso que precisava de perceber. Que eram essas memórias que precisava de guardar em mim. Precisava de separar o passado do presente, para saber o que era verdade e o que fora ficção. Para te deixar ir ter o futuro que merecias.
Estavas bem ai...
E eu só tinha que te deixar estar.
Continuei o meu caminho, percorri o mundo sem compromisso, e entre passos mal dados, sorri;
Se hoje estás feliz, parte disso deveu-se a mim. E o trabalho que inicialmente vim fazer, está feito.